entre o céu e o inferno

Polaroid, Netscape, Alta Vista…quem se lembra? Eu e minha tchurma de tecnologia do Valor fizemos questão de checar por onde andam esses caras. Os líderes de ontem que morreram. Matéria curiosa, escrita a 8 mãos, abaixo.

 

Companhias de TI entre o céu e o inferno

Talita Moreira, André Borges, Gustavo Brigatto e Manuela Rahal, de São Paulo

Ao anunciar o desenvolvimento do Chrome OS, um sistema operacional próprio, o Google mostrou-se disposto a desafiar a hegemonia que a Microsoft detém há quase 20 anos. De quebra, fez uma provocação: argumentou que os softwares disponíveis no mercado hoje foram criados num mundo pré-internet.

Pode soar uma ousadia desafiar uma marca tão poderosa quanto o Windows – e talvez seja mesmo. Mas não é um jogo necessariamente perdido. A história recente do setor de tecnologia da informação (TI) é cheia de casos de empresas que já deram as cartas em seus mercados e não conseguiram se manter no topo. É uma dura lição da qual nem Google nem Microsoft estão a salvo.

Quem navega na internet hoje certamente não usa o browser Netscape, não faz buscas no Altavista e muito menos checa seus e-mails no Starmedia, mas vale lembrar que essas marcas dominavam a web há apenas uma década.

Inovações tecnológicas e mudanças radicais no comportamento dos consumidores varreram do mapa ou reduziram a pó a relevância e o preço das ações de companhias que pareciam intocáveis num passado recente.

Basta olhar para a America Online (AOL). O todo-poderoso portal de acesso à internet foi do céu ao inferno em pouquíssimos anos. Em 2000, a compra da Time Warner pela AOL – por US$ 180 bilhões – deveria ter significado a vitória da internet sobre as “velhas mídias” e o início do império do provedor sobre o setor de comunicação. Hoje, a realidade da empresa americana é completamente diferente. O faturamento ainda é expressivo: próximo dos US$ 5 bilhões, praticamente o mesmo que há 9 anos. Mas sua relevância na web é bem menor.

A AOL, que já teve 27 milhões de assinantes, hoje contabiliza menos de 10 milhões. Falta de inovação e apostas erradas são os principais ingredientes da receita de sua derrocada. Desmembrada da Time Warner em maio deste ano, a AOL prepara a venda de ativos e estuda em quais vai apostar para tentar sobreviver.

Para Luiz Felipe Alvarenga, diretor de novos negócios da consultoria Ana Couto Branding & Design, muitas dessas empresas acabam morrendo porque deixaram passar o momento de repensar a marca de forma estratégica. “O planejamento a longo prazo da personalidade da marca é fundamental”, afirma.

Nem sempre é apenas uma questão de marca. Companhias como a AOL foram pioneiras num mercado que estava nascendo e que depois desenvolveu novas características. Além disso, inovações tecnológicas podem virar de ponta-cabeça um mercado que parecia consolidado.

Principal fornecedora de tecnologia para a indústria do cinema na década de 90, a Silicon Graphics sumiu do mapa com a incorporação do processamento das imagens em terceira dimensão (3D) por computadores de menor porte e custo. Depois de várias tentativas de recuperação, a empresa foi vendida para a Rackable Systems por US$ 25 milhões em maio, e aguarda o julgamento do seu processo de falência.

A Polaroid tornou-se sinônimo de fotografia instantânea com sua linha de câmeras fotográficas capazes de revelar, em poucos segundos, as imagens captadas por suas lentes. Ela causava frisson nos anos 80 e ainda se mantinha atraente uma década mais tarde. As câmeras Polaroid custavam caro e davam status. Mas perderam todo o glamour quando os equipamentos digitais apagaram do mapa o filme analógico.

Daí em diante, o caminho da Polaroid tem sido uma longa estrada acidentada. A empresa perdeu receita e afundou em dívidas, não antes de tentar uma incursão (malsucedida) no setor de TVs de tela plana. No fim de 2008, a companhia pediu proteção contra credores e, em abril, a empresa de participações Patriarch Partners venceu um leilão para vendas dos ativos da Polaroid e promete recuperar o brilho da marca.

Na arena das fotos, a Kodak tem se mostrado mais ágil. Uma decisão emblemática foi tomada no mês passado, quando ela anunciou que não vai mais produzir filmes fotográficos – atividade que se tornou a marcas da companhia.

Segundo o executivo-chefe da NCR, Bill Nuti, manter um ritmo constante de inovação e um olhar preciso sobre o mercado são os ingredientes básicos para a longevidade. “É preciso acompanhar de perto o que seu cliente pede e trabalhar para isso”, comenta Nuti.

A NCR, uma das maiores fornecedoras de equipamentos de segurança e de armazenamento de dinheiro para o setor financeiro, foi fundada em 1884 pelo criador da caixa registradora, John H. Patterson. É mais uma prova de que uma marca pode sobreviver ao tempo. A Microsoft tem feito o mesmo nos últimos 20 anos. Isso não significa, porém, que o sistema operacional Windows ainda será a referência na próxima década. Nem mesmo o Chrome.


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